Homilia de Sua Beatitude Sviatoslav no Primeiro Domingo da Grande Quaresma em Prudentópolis (Brasil)
”… E, encontrando Filipe, disse-lhe: ‘Segue-Me’” (Jo 1,43).
Excelências Reverendíssimas!
Reverendíssimos Padres!
Reverendas Irmãs!
Queridos catequistas!
Excelentíssimo Senhor Prefeito de Prudentópolis!
Dignos representantes das autoridades públicas!
Ilustríssimos dirigentes das associações e organizações culturais ucranianas,
das escolas e de outras instituições educacionais!
Querida juventude!
Queridas crianças!
Queridos irmãos e irmãs em Cristo!
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!
Todos nós sentimos a profunda alegria que vivemos juntos neste momento especial. Essa alegria, como observou um menino, paira entre nós. Somos testemunhas de um encontro histórico: a Ucrânia e o Brasil se unem aqui neste momento. Nossa Igreja Mãe, desde Kiev, abraça sua filha aqui, em Prudentópolis. Em tempos de duras provações, os filhos da Ucrânia, espalhados pelo mundo inteiro, sentem que, juntos, formamos um grande e forte povo, que conta com cerca de sessenta milhões de ucranianos na própria Ucrânia e fora dela.
Para explicar mais profundamente o sentido espiritual, até místico, da alegria deste encontro, hoje o Senhor Deus nos envia a palavra do Seu Evangelho (Jo 1,43–51). Por meio da leitura evangélica, Ele mesmo falou conosco.
Ouvimos como Jesus procura seus primeiros discípulos. O evangelista diz: “… E, encontrando Filipe, disse-lhe: ‘Segue-Me’” (Jo 1,43). É interessante que aqui vemos Deus à procura do homem. Não é o homem que procura Deus, mas o contrário! A iniciativa é d’Ele; Ele me procura e fala pessoalmente: “Segue-Me”.
Nessa breve frase, Deus revela o sentido da sua ação salvífica para com o ser humano, manifesta o profundo significado da vocação cristã e também o valor e a missão do serviço missionário da Igreja de Cristo. Ser cristão significa ser encontrado por nosso Senhor e não se perder novamente, mas segui-Lo, caminhando ao encalço de Jesus Cristo!
No Evangelho ouvimos que Jesus é o Filho de Deus, em quem há plenitude de vida e salvação. Pela sua vinda até nós na carne — o Filho de Deus que se fez Filho do Homem — Deus cumpre sua promessa ao povo de Deus. O profeta Jeremias diz: “Faze-nos voltar a ti, Iahweh, e voltaremos. Renova nossos dias como outrora” (Lm 5,21). O Filho Unigênito do Pai veio precisamente para responder a esse clamor e choro da humanidade perdida. Em Cristo, Deus procura e encontra o homem!
Assim acontece no caminho pessoal da vida de cada ser humano. Cristo diz: “Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto…” (Jo 15,16). A iniciativa desse encontro, dessa escolha e desse chamado pertence sempre a Ele. Ser cristão, ser discípulo de Cristo, significa permitir que Deus nos encontre. Isso implica ouvir o convite e segui-Lo.
Aquele que permite que Cristo o encontre não apenas se torna seu discípulo, mas imediatamente se transforma em missionário. Vemos como Filipe não consegue guardar para si essa descoberta e apropriar-se sozinho do encontro com o Senhor. Ele deseja imediatamente partilhá-la. O discípulo chamado torna-se apóstolo: encontra para Cristo o seu amigo. “Filipe encontra Natanael e lhe diz: ‘Encontramos aquele de quem escreveram, na Lei, e os profetas: Jesus, o filho de José, de Nazaré’. Perguntou-lhe Natanael: ‘De Nazaré pode sair algo de bom?’. Filipe lhe disse: ‘Vem e vê’” (Jo 1,45–46). Filipe torna-se missionário, porque faz a mediação do encontro entre Cristo e Natanael. Ele ajuda o Senhor a encontrar seu amigo e a entrar com ele nesse encontro misterioso e profundamente pessoal. Esse é o verdadeiro mistério da vida humana e cristã.
Contemplamos no iconóstase deste templo o ícone de Cristo entronizado. Neste domingo, a Igreja nos convida de modo especial a redescobrir e valorizar, para a nossa vida espiritual, o mistério do ícone como espaço de encontro entre o mundo visível e invisível, entre Deus e o homem, entre os santos no céu e o povo de Deus na terra. Aqui vemos Cristo Mestre, que segura o livro aberto do Santo Evangelho e nos convida ao encontro, assim como convidava seus discípulos na Galileia. Vocês já leram tudo o que está escrito nesse livro que Cristo mantém aberto diante de vocês há mais de cem anos?
Em eslavônio antigo está escrito: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25,34). Isso significa que vocês têm uma história. Vocês não são órfãos, mas herdeiros do Reino celeste de Cristo.
Queridos em Cristo! Viemos até vocês com o Sínodo Permanente dos Bispos da nossa Igreja. Queremos vos assegurar: tudo o que vocês ouviram na leitura do Evangelho de hoje se cumpriu diante dos vossos olhos. O Evangelho termina com uma declaração solene. Jesus diz: “Em verdade, em verdade vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51).
Lembrem-se de como, no início da Divina Liturgia, se abriram as portas reais. Contemplamos o ícone de Jesus Cristo presente no meio de vocês. Esse ícone vivo, sinal da presença constante do Senhor entre vocês — que veio aqui para encontrar o homem — é o vosso bispo Meron! Os discípulos que O encontraram, os apóstolos, são vocês. As pessoas que Deus quer encontrar e conduzir ao céu aberto são todos vocês.
Essas palavras sobre o céu aberto realizam-se diante dos nossos olhos. Vemos e ouvimos o cumprimento das palavras dos Padres da Igreja: “Onde está o bispo, ali está a Igreja”. Santo Inácio de Antioquia (viveu entre os anos 50 e 110 d. C.) nos ensina: “Onde comparece o bispo, que haja comunidade; assim como onde está Jesus Cristo, ali está a Igreja Católica” (Carta aos Esmirnenses, 8,2).
O bispo é aquele que abre o céu para o seu povo. Ele realiza a missão dos apóstolos: procurar o homem para Deus. Vocês, queridos padres, são ícones daqueles apóstolos reunidos ao redor de Jesus Cristo. E todo o povo de Deus são aqueles que vocês reúnem aqui na terra para o Reino dos Céus (cf. Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos 3, 1).
Hoje podemos dizer: mesmo depois das guerras mundiais e das várias ondas de emigração, quando os ucranianos se espalharam pelo mundo inteiro — das estepes do Canadá às florestas do Brasil e da Argentina — vocês, como povo de Deus, não ficaram como ovelhas sem pastor. O Senhor enviou-lhes missionários, padres, irmãs e depois um bispo, sucessor da tradição apostólica, para que ninguém se sentisse esquecido ou abandonado, mas experimentasse a alegria de ser encontrado por Deus. Essa alegria é descrita por Santo Agostinho de Hipona: “Chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste e afugentaste a minha cegueira” (Confissões, livro 10, cap. 27, § 38).
Hoje venho até vocês como testemunha de uma Ucrânia ferida, mas não vencida. Nestes dias completa-se o quarto ano da grande guerra — uma guerra que é crime contra Deus e contra a humanidade. Nós, ucranianos, somos aqueles que Jesus encontrou. No início dessa guerra vivemos o seu primeiro e mais terrível ataque: os tanques russos se aproximaram a apenas vinte quilômetros da nossa Catedral Patriarcal em Kiev — ali foi traçada a linha entre a vida e a morte. Estou vivo diante de vocês graças aos soldados ucranianos — rapazes e moças que, com suas vidas, salvaram a capital da Ucrânia e reconquistaram territórios do nosso país.
Agradecemos de coração por vossas orações e pelo apoio à Ucrânia. Nós vimos crianças que, cada vez que vão à catequese, rezam pelas crianças do nosso país. Ontem, um menino me perguntou: “Na Ucrânia ainda há muitas crianças?”. Sim, há muitas. Rezem por elas! Também nos comoveram as palavras de uma menina: “Amamos tanto aquela Ucrânia que nunca vimos!”. Obrigado pelo amor e pela solidariedade.
Vivendo este momento trágico de dor, ao mesmo tempo vivemos na alegria. Todos viram as histórias de Mariupol — pessoas nos abrigos antibombas, debaixo da terra, com a canção ucraniana nos lábios. Jesus Cristo está presente entre nós também nesses momentos. As pessoas se reúnem nos abrigos, nos centros de resistência, para se aquecer, mas não choram nem se desesperam — cantam e dançam. De onde vem essa alegria? De onde vem essa força? Parece brotar do seio da terra ucraniana, da Pátria que sofre, mas permanece firme e invencível. Certamente, tudo isso vem de Deus. Cristo está conosco hoje, como esteve na Galileia, quando encontrou Filipe. Agora, na Ucrânia, Ele encontra cada um que se sente filho de Deus e segura firme a Sua mão.
Pedimos a vocês: preservem as vossas tradições, preservem a vossa memória. Não percam os tesouros da nossa cultura popular e nacional. Mas vos peço: nunca percam o maior tesouro que vossos antepassados trouxeram para cá. Esse tesouro é a fé cristã. E essa fé é o fundamento da nossa alegria e da nossa esperança.
Talvez, alguém pense que anunciamos coisas extraordinárias, mas hoje Cristo nos diz: vereis coisas ainda maiores! Foi Ele quem nos disse: “Em verdade, em verdade vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51).
Amém.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!
† SVIATOSLAV



