Sermão de Sua Beatitude Sviatoslav na Catedral São João Batista no Domingo do Perdão, em Curitiba (Brasil)

Sermão de Sua Beatitude Sviatoslav na Catedral São João Batista no Domingo do Perdão, em Curitiba (Brasil)

February 16, 2026, 15:04 10

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“…E teu Pai, que está lá, no segredo, te recompensará” (Mt 6,4).

Excelência Reverendíssima, Metropolita Dom Volodymyr!
Excelências Reverendíssimas e amados bispos!
Excelência Reverendíssima Dom Antônio Peruzzo, Arcebispo de Curitiba!
Reverendíssimos e digníssimos padres!
Reverendas irmãs!
Querida comunidade ucraniana no Brasil: representantes de organizações e associações comunitárias, escolas e grupos culturais!
Queridos pais e queridos filhos!

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Reunimo-nos aqui, nesta histórica Catedral São João Batista, em Curitiba, para celebrar juntos a unidade da Igreja Católica Ucraniana global, presente no mundo inteiro. Com esta solene Divina Liturgia iniciamos a histórica sessão do Sínodo Permanente dos Bispos da nossa Igreja no Brasil e, ao mesmo tempo, a visita pastoral à nossa comunidade.

Comigo vieram bispos ucranianos de todo o mundo: da Ucrânia, da Polônia, da Alemanha, do Canadá, bem como da Argentina e, naturalmente, do Brasil. Quero que vocês entendam claramente: a nossa Igreja-Mãe na Ucrânia, mesmo neste tempo trágico de guerra, ama vocês de modo sincero e profundo. Foi por isso que viemos — para abraçar nossos filhos e filhas aqui no Brasil.

A Palavra de Deus do Santo Evangelho (Mt 6,14–21), que acabamos de ouvir, nos oferece para alimento espiritual um trecho do Sermão da Montanha de Jesus Cristo, que alguns estudiosos chamam de “Constituição do Reino dos Céus”. O Senhor nos convida a olhar para toda a nossa vida — para nós mesmos e para os outros — a partir da perspectiva da eternidade, da perspectiva do Reino dos Céus.

Esta Palavra divina nos chama a mudar nosso olhar sobre a vida pessoal e as relações interpessoais, contemplando-as à luz do Reino dos Céus. Na Ucrânia, vivemos todos os dias sob a ameaça da morte. Isso muda a maneira como percebemos o que fazemos e planejamos na vida, pois agora olhamos para tudo sob a perspectiva da eternidade.

Hoje, ao ouvirmos o convite da Igreja para iniciar o caminho da Grande Quaresma, o Evangelho destaca três aspectos da nossa caminhada rumo a Deus: mostra-nos a meta para a qual devemos nos dirigir; o caminho que devemos percorrer; e a força com a qual devemos avançar.

O objetivo final de nossa vida terrena é alcançar o tesouro no céu, entrar na vida eterna com o nosso Senhor. A linguagem do Evangelho é especial: Mateus utiliza aqui uma forma bíblica particular de falar de Deus sem mencionar Seu nome. O Céu aqui é uma dimensão especial da existência, um espaço onde o homem vive com Deus na eternidade. Assim, a meta da nossa vida terrena, como ensina o Catecismo da nossa Igreja, é conhecer a Deus, amá-Lo e, por meio da nossa vida aqui na terra, alcançar esse tesouro no céu, “pois onde está teu tesouro aí estará também teu coração” (Mt 6,21).

O caminho para o Senhor são as nossas boas obras, que nos trazem alegria em Deus. Por isso o Evangelho nos diz hoje: “Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio como os hipócritas…” (Mt 6,16). A pessoa naturalmente se entristece quando pratica o mal, pois a consciência a acusa. Mas, quando faz o bem, experimenta alegria espiritual. Alegramo-nos quando somos capazes de praticar o bem. Como dizia meu grande predecessor, o Patriarca Lubomyr Husar: “Nunca somos tão fracos que não possamos fazer o bem”.

Qual é, então, a força que nos permitirá alcançar o Reino dos Céus? É a conversão a Deus e o arrependimento. O Senhor quer nos dar tanto, mas estamos tão pouco dispostos para receber. Para obter o tesouro do Reino dos Céus, é preciso deixar tudo aquilo que nos impede de seguir esse caminho. Antes de tudo, perdoar às pessoas as ofensas cometidas contra nós.

Alguém pode perguntar: vocês, ucranianos, conseguem perdoar durante a guerra? A resposta é: sim! Porque o perdão é o segredo da nossa resistência e da nossa vitória. Ele nos liberta do ódio contra aqueles que matam e nos torna mais fortes. Muitos dizem que a capacidade de perdoar é a arma secreta dos ucranianos.

Recordo-me de uma mulher de Zhytomyr, cuja casa foi destruída pelos russos. Ela procurou um sacerdote e disse: “Padre, eu não consigo perdoar. Tudo pelo que trabalhei a vida inteira desapareceu em um dia. Sobrevivemos por um milagre”. O padre respondeu: “Se o teu ódio pudesse derrubar ao menos um míssil russo, então poderias odiar. Mas, na realidade, ele envia mísseis ao teu coração. Eles não destroem a casa, mas a ti, a tua felicidade eterna”.

O Senhor diz: “Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará” (Mt 6,15). O perdão aos outros é a arma secreta do povo ucraniano hoje. Por meio de um coração livre, o Senhor nos concede uma força que se transforma em resistência a todo mal. Resistimos ao ocupante e surpreendemos o mundo com a nossa resiliência. É um milagre, mas é sinal da presença de Deus no corpo sofredor do nosso povo.

Queridos irmãos e irmãs em Cristo, ao iniciarmos a nossa visita pastoral, quero que vocês vejam: a Ucrânia está viva. Cada vez que a propaganda diz que já não existimos, que a esperança acabou — isso é mentira. A Ucrânia está viva! Ela permanece de pé, luta e reza!

Viemos da capital da Ucrânia, da gelada Kyiv, para partilhar com vocês a força extraordinária do povo ucraniano que resiste. No passado, sobrevivemos ao Holodomor, quando nosso inimigo quis destruir o povo por meio da fome artificial. Hoje, querem nos matar promovendo um novo genocídio na Ucrânia, já chamado de “холодомор-kholodomor” — assassinato por frio durante o inverno anormalmente rigoroso que estamos vivenciando este ano, devido à destruição sistemática, de alta tecnologia e deliberada da infraestrutura vital de nossas cidades e vilas, como as redes de aquecimento e eletricidade. No entanto, o povo ucraniano resiste.

Agradeço a todos vocês que manifestam solidariedade ao nosso povo. Vocês têm uma missão especial aqui no Brasil: testemunhar que a Ucrânia resistirá. São chamados a convencer que a Ucrânia vencerá. Quem duvida disso, que se converta! Quem não acredita que conseguiremos resistir e vencer, que faça um sério exame de consciência! O tempo da Grande Quaresma é ocasião para renovar a fé, a esperança e a caridade.

Um agradecimento especial a todos os que trabalham para que a Igreja e a comunidade ucraniana no Brasil cresçam e se desenvolvam. Obrigado às irmãs que preservam o exemplo de santidade da nossa vida consagrada neste país. Sei que estão em preparação processos de beatificação de nossas irmãs, e aguardamos com expectativa o dia de sua glorificação. Obrigado aos pais que ensinam a fé, a oração e a língua ucraniana a seus filhos. Alegra-me ver que vocês compreendem a minha palavra em ucraniano e que, mesmo na nona ou décima geração, continuam a construir a Igreja Católica Ucraniana no Brasil.

Hoje, quero recordar aqueles “pioneiros” que trouxeram a nossa Igreja, cultura e vida espiritual para esta terra. De modo especial, nesta Santa Liturgia, rezaremos pelo Bispo José Martenetz e por seu sucessor, o Bispo Efraim Basílio Krevey, heróis da nossa Igreja. Tenham certeza de que pensamos também no vosso e no nosso futuro no Brasil.

Pedimos: Senhor, abençoa-nos — somos Teus filhos e filhas, somos Tua Igreja! Abençoa a Ucrânia! Ajuda os poderosos deste mundo a encontrar um modo de deter o agressor russo. Esta guerra é uma vergonha para a humanidade do terceiro milênio. É impossível entender que os poderosos deste mundo não consigam deter o agressor assassino. É impossível! Cremos que Deus é o Senhor da história. Os homens começam as guerras, mas o Senhor lhes põe fim. Por isso pedimos: Senhor, Tu que vês o que está oculto, recompensa a todos nós (cf. Mt 6,4). Amém.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

† SVIATOSLAV

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